Por Flávia W. Ajame de Queiroz Monteiro
Você não precisa resolver tudo de uma vez. Precisa conhecer seus riscos, definir prioridades e demonstrar que está agindo.
As recentes mudanças relacionadas à NR-01 trouxeram novamente a Segurança e Saúde do Trabalho para o centro das discussões nas empresas e condomínios, especialmente pela necessidade de considerar, dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho.
Naturalmente, surgem dúvidas: O que precisa ser feito? Quem deve fazer? É necessário contratar psicólogo? Como avaliar os funcionários? O que muda no PGR? Qual é a responsabilidade do síndico?
São perguntas importantes. Mas existe uma questão anterior a todas elas: não podemos esperar compreender cientificamente toda a Segurança do Trabalho para começar a fazer gestão de segurança.
É justamente para isso que existem profissionais especializados.
A SEGURANÇA E A MEDICINA TÊM ALGO EM COMUM
Quando uma pessoa procura um gastroenterologista, não precisa estudar primeiro todo o aparelho digestivo, compreender o funcionamento do intestino e do estômago, conhecer as doenças existentes e descobrir quais exames estão disponíveis.
Ela procura um médico.
O profissional avalia a situação e apresenta um caminho: exames, tratamento, mudanças de hábitos, prevenção e acompanhamento.
Talvez o paciente não consiga fazer tudo naquele momento. Mas ele sai da consulta sabendo o que precisa ser feito, o que é prioritário e o que deverá ser acompanhado.
Existe, nesse relacionamento, o reconhecimento da especialização e da autoridade técnica.
O médico não é valorizado porque o paciente entende medicina. Ele é valorizado porque existe o reconhecimento de que aquele profissional estudou e se especializou para orientar sobre aquele assunto.
Por que deveríamos enxergar a Segurança e Saúde do Trabalho de maneira tão diferente?
Um médico presta um serviço especializado na área da medicina. Um psicólogo, na psicologia. Um engenheiro, na engenharia. E os profissionais de Segurança do Trabalho atuam tecnicamente na identificação, avaliação, prevenção e gerenciamento dos riscos existentes nos ambientes de trabalho.
São profissões diferentes, com atribuições diferentes, mas existe algo em comum: conhecimento técnico, experiência, responsabilidade e capacidade de orientar quem não precisa — e nem deve — dominar aquele conhecimento especializado.
É essa cultura que precisamos fortalecer em torno da SST.
O síndico não precisa dominar tecnicamente todas as Normas Regulamentadoras para reconhecer a necessidade de contratar quem domina.
O SÍNDICO NÃO PRECISA SER ESPECIALISTA. PRECISA FAZER GESTÃO.
Quando levamos essa discussão para os condomínios, isso se torna ainda mais evidente.
Um síndico administra patrimônio, contratos e recursos financeiros, mas também é responsável pela gestão de um ambiente no qual trabalham e circulam funcionários, moradores, visitantes e prestadores de serviços.
Ele não precisa se transformar em engenheiro de segurança, médico do trabalho, psicólogo, especialista em estruturas ou especialista em proteção contra incêndio.
Mas precisa saber que essas responsabilidades existem e procurar profissionais capacitados para orientá-lo.
É aqui que entra o verdadeiro sentido da Gestão de Segurança e Saúde do Trabalho.
O Ministério do Trabalho e Emprego define o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais – GRO como um conjunto coordenado de ações de prevenção, tendo o PGR como instrumento que materializa esse gerenciamento. Portanto, não estamos falando apenas de produzir documentos para arquivamento. Estamos falando de um processo contínuo de identificação de perigos, avaliação de riscos, definição de medidas preventivas e acompanhamento. NR-01 – Ministério do Trabalho e Emprego
E essa distinção é fundamental:
TER UM PGR NÃO É A MESMA COISA QUE TER GESTÃO.
O PGR precisa ser conhecido, acompanhado e transformado em ações.
COMECE PELO BÁSICO
Existe uma tendência de enxergarmos a Segurança do Trabalho como um universo tão complexo que acabamos adiando até as providências mais simples.
Minha orientação costuma ser exatamente o contrário:
Comece pelo básico.
- Existe PGR?
- O Plano de Ação está atualizado?
- O cadastro dos funcionários corresponde à realidade atual do condomínio?
- Os ASOs estão em dia?
- Os EPIs necessários estão sendo fornecidos e controlados?
- Os funcionários receberam os treinamentos e capacitações aplicáveis?
- Os postos de trabalho apresentam condições ergonômicas adequadas?
- O projeto de segurança contra incêndio corresponde à realidade da edificação?
- O processo de regularização perante o Corpo de Bombeiros está atualizado?
- Os extintores estão dentro da validade e corretamente posicionados?
- Os hidrantes, bombas e demais sistemas preventivos recebem manutenção?
- A sinalização está adequada?
- Os funcionários sabem onde estão os extintores e hidrantes? Sabem minimamente como proceder diante de uma emergência?
- São perguntas aparentemente simples, mas que começam a construir uma verdadeira cultura de prevenção.
Um treinamento de brigada, por exemplo, não significa que nunca haverá um incêndio. Significa preparar pessoas para reagirem melhor caso uma emergência aconteça.
Da mesma maneira, procurar um médico não garante que uma pessoa nunca ficará doente.
Prevenção não é promessa de que nada acontecerá. Prevenção é preparação, redução de riscos e capacidade de resposta.
E ONDE ENTRA A NOVA NR-01?
A atualização da NR-01 reforçou a necessidade de incluir expressamente no gerenciamento de riscos os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho.
Isso gerou grande discussão — e também alguma confusão.
É importante compreender que avaliar fatores psicossociais relacionados ao trabalho não significa simplesmente realizar uma avaliação clínica ou diagnosticar psicologicamente cada funcionário.
O olhar da SST está voltado aos fatores relacionados à organização e às condições do trabalho: exigências, sobrecarga, relações profissionais, comunicação, suporte, situações de assédio, conflitos e outros aspectos capazes de interferir na saúde e segurança do trabalhador.
É um processo de gerenciamento de riscos.
Na nossa concepção de Gestão de SST, a rotina parte de uma sequência lógica:
Atualizar o PGR → revisar o Plano de Ação → realizar a avaliação organizacional → analisar os resultados → identificar os fatores de risco → estabelecer medidas preventivas → encaminhar situações que exijam atuação especializada → acompanhar.
A participação individual dos trabalhadores em um instrumento de avaliação pode fornecer informações importantes para essa análise, mas o objetivo não deve ser transformar uma ferramenta organizacional em diagnóstico clínico individual.
Quando os resultados apontarem situações que demandem aprofundamento ou intervenção específica, entram os profissionais especializados correspondentes.
Pode ser necessário um psicólogo.
Em outra situação, um médico do trabalho.
Em outra, um ergonomista.
Pode ser um engenheiro de segurança, especialista em instalações, estruturas ou proteção contra incêndio.
Segurança não é uma profissão isolada tentando resolver todos os problemas. É uma gestão que reúne diferentes competências conforme os riscos identificados.
O PLANO DE AÇÃO É O CAMINHO
Talvez esse seja um dos pontos mais importantes para quem administra um condomínio.
Ao identificar dez, vinte ou trinta providências necessárias, não significa necessariamente que todas possam ser executadas simultaneamente.
É preciso avaliar riscos, estabelecer prioridades, definir responsáveis, prazos e recursos.
O que não é razoável é desconhecer completamente os riscos ou simplesmente ignorá-los.
É por isso que gosto da comparação com uma consulta médica.
Você pode sair de uma consulta com uma lista de exames, recomendações, medicamentos, dieta e mudanças de hábitos. Talvez não consiga implementar tudo no mesmo dia.
Mas agora existe um caminho.
Na Segurança do Trabalho, o PGR e seu Plano de Ação cumprem justamente esse papel de organizar o gerenciamento dos riscos e orientar as medidas necessárias.
O condomínio passa a saber onde está, quais são suas prioridades e para onde precisa caminhar.
SEGURANÇA PRECISA ENTRAR NO ORÇAMENTO E NA ROTINA
Existe ainda uma mudança cultural necessária.
Segurança não deveria aparecer no orçamento somente quando vence um extintor, chega uma fiscalização, acontece um acidente ou surge uma exigência do Corpo de Bombeiros.
Ela precisa fazer parte da rotina administrativa.
Assim como existem despesas mensais com elevadores, limpeza, portaria, energia e manutenção predial, é necessário prever recursos para Segurança e Saúde do Trabalho, proteção contra incêndio, treinamentos, exames, EPIs e manutenções preventivas.
Nem tudo será realizado no mesmo mês.
Mas aquilo que não puder ser executado imediatamente precisa, no mínimo, estar identificado, priorizado e planejado.
É isso que transforma uma obrigação em gestão.
SEGURANÇA TAMBÉM É VALORIZAÇÃO DAS PESSOAS
Existe ainda um efeito que muitas vezes passa despercebido.
Quando uma empresa ou condomínio entrega corretamente os EPIs, mantém os exames ocupacionais em dia, oferece treinamento, melhora uma cadeira inadequada, organiza um posto de trabalho, corrige uma situação insegura e demonstra preocupação com o ambiente profissional, transmite uma mensagem ao trabalhador:
“Você é importante. Sua segurança é importante. Sua saúde é importante.”
Prevenção também produz percepção de cuidado, organização e valorização.
E isso nos leva novamente aos fatores psicossociais.
Não podemos discutir saúde no trabalho olhando apenas para um questionário. Precisamos olhar para a forma como aquela organização efetivamente cuida das pessoas que trabalham nela.
A NR-01 NÃO DEVE SER VISTA APENAS COMO MAIS UMA OBRIGAÇÃO
Talvez a maior contribuição dessa discussão seja justamente mudar a forma como enxergamos a Segurança e Saúde do Trabalho.
Não espere compreender tecnicamente todas as normas para começar.
Não espere um acidente para procurar um especialista.
Não espere uma fiscalização para descobrir suas obrigações.
Procure um profissional.
Peça que ele avalie a situação.
Conheça seus riscos.
Leia seu PGR.
Conheça seu Plano de Ação.
Defina prioridades.
Faça aquilo que pode ser feito imediatamente.
Planeje aquilo que dependerá de investimento.
E acompanhe continuamente.
O papel de uma boa Gestão de SST não é simplesmente entregar documentos. É fazer com que esses documentos se transformem em informação, decisão, prevenção e ação.
Assim como fazemos com a nossa saúde, precisamos aprender a fazer com a segurança das organizações.
Não é preciso fazer tudo de uma vez.
Mas é preciso saber o que precisa ser feito e começar a fazer.
Porque entre ignorar um risco e começar a preveni-lo, começar a prevenir será sempre o melhor caminho.
